sábado, 29 de junho de 2013

MACAÉ, A LENDA DE MOTTA COQUEIRO E A MALDIÇÃO

“Lembrar não é reviver, mas refazer, reconstruir, repensar, com imagens e ideias de hoje as experiências do passado”.
Ecléia Bosi


As lendas surgem na boca do povo e tentam, de alguma forma, explicar combinações de fatos reais e históricos com fatos que se misturam na imaginação das pessoas. Elas, diferentemente dos mitos, correm oralmente de geração em geração e, por isso, sofrem alterações à medida que vão sendo recontadas.
Deve-se levar em conta que uma lenda não significa uma mentira, nem tão pouco, uma verdade absoluta. Para ser criada, defendida e o mais importante, ter sobrevivido na memória das pessoas, ela deve ter, no mínimo, alguma parcela de fatos verídicos. Para outros, ao contrário, é apenas fruto da imaginação, da cultura popular ou confabulação de cada sujeito.De qualquer forma, nas lendas, fato e fantasia são interligados.
Em Macaé, uma das lendas que se mistura com a história da cidade e da memória coletiva, é a clássica Lenda de Motta Coqueiro. Conta a lenda que Manuel da Motta Coqueiro, filho de José da Motta e Ana Francisca do Nascimento, viveu cinquenta e três anos. Do seu casamento com Úrsula das Virgens Cabral, teve três filhos: Benedito, Ana e Domingas.

Retrato falado de Manuel da Mota Coqueiro
O apelido - “Coqueiro” - não consta oficialmente no nome de seus ascendentes nem descendentes. Forte e enérgico, Coqueiro destacava-se, também, por uma pigmentação escura no rosto. Pobre e trabalhador, ele conseguiu, nessa idade, acumular um patrimônio significativo. Dentre eles, terras de sesmaria em Macabu, Município de Macaé, Estado do Rio de Janeiro na época, um sítio Bananal, à margem do rio Macabu, com seiscentas braçadas de testada e meia légua de fundos, treze animais, pastos, lavouras, vinte e cinco escravos e objetos de valor numa casa em Campos dos Goytacazes.
A tranquilidade de Coqueiro e da pacata Macahé acabaram, quando no dia quinze de setembro de 1852, um inspetor de quarteirão em Carapebus - André Ferreira dos Santos - oficia ao subdelegado da mesma Freguesia, comunicando-lhe um bárbaro crime. Francisco Benedito da Silva e toda a sua família tinham sido encontrados mortos, em putrefação, e queimada a casa em que se encontravam, em Macabu. Constava, nessa notícia, que Manuel da Motta Coqueiro mandara seus escravos assassinarem toda a família, no domingo à noite, doze de setembro e que, no dia seguinte, mandara colocar fogo na casa.
Logo após esta notícia, que transformaria a Macahé e se misturaria com sua história anos mais tarde, aparecera a declaração divulgada pelo governo que dizia: “Por ordem do Sr. Chefe de Polícia da Província, com autorização da Presidência, faço público que se dará a quantia de dois contos de reis, a quem descobrir o paradeiro de Manuel da Motta Coqueiro e seus escravos, autores dos assassinatos praticados nos sertões de Macabu, em Macahé, de uma família inteira.
Em dezessete de outubro de 1852, Motta Coqueiro é capturado, pelo inspetor de Quarteirão, no Rio preto. Por ordem do subdelegado de Barra Mansa, em 21 de outubro de 1852, Motta Coqueiro é enviado ao delegado de Polícia do município de Campos.
Em 22 de janeiro de 1853, depois de uma sessão de júri, que durou 48 horas, foram condenados à última pena de morte ocorrida no Brasil, Motta Coqueiro, Faustino Florentino e o negro Domingos, os quais protestavam por novo julgamento. No Jornal do Comércio de 04 de março de 1855, lia-se o seguinte: “Ontem, às 9 horas da manhã, chegou ao arsenal da Marinha, o réu Manuel da Motta Coqueiro, condenado à pena última pelo bárbaro assassinato de uma família inteira, e embarcou logo para o vapor de guerra P.II., que, imediatamente, seguiu barra a fora, para conduzir o réu a Macaé, onde tem de ser executado no dia 06 do corrente ano”.
Motta Coqueiro foi enforcado numa quarta-feira, dia 07 de março de 1855, depois de ter assistido à execução dos seus co-réus. A população testemunhou, assim, pela segunda vez, o horrível espetáculo, na Velha Praça da Luz, hoje terreno do prédio do Colégio Estadual Luiz Reid e da FAFIMA - Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Macaé. No patíbulo (palco tipicamente de madeira, usado para execução), Motta Coqueiro, tomado de extremo ódio da sociedade, teria lançado sobre a cidade de Macahé, a praga de “Cem anos de maldição”. A partir desta data e da maldição do enforcado, para os macaenses supersticiosos, qualquer situação desdita resultaria da praga do enforcado. Com o primeiro centenário da execução - 06 de março de 1955 - e a chegada da Petrobras na cidade, foi extinto o prazo da maldição.
Alguns anos mais tarde, descobriram-se, através de evidências escondidas na época, que Motta Coqueiro era inocente e tivera sido enforcado sem culpa.
Infelizmente, dizem que até hoje, pelas redondezas do quarteirão do Colégio Estadual Luiz Reid e da FAFIMA, nas altas horas da noite, algumas pessoas veem vultos e ouvem barulhos de correntes arrastando-se pelas calçadas. Alguns afirmam, veemente, que o vulto branco e fantasmagórico, além das longas correntes e do som lúgubre de intensos gemidos, são do enforcado.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. São Paulo. Editora da Universidade de São Paulo. 1987.
MARCHI, Carlos. Fera de Macabu. A História e Romance de um Condenado à Morte. Rio de Janeiro. Record. 1988.
PATROCÍNIO, José do. Motta Coqueiro ou a Pena de Morte. Rio de Janeiro. Francisco Alves. Instituto Estadual do Livro. 1977.
Imagem: Reprodução do Livro Brasil Pela Imagem. Mostra Mota Coqueiro a caminho da forca - crédito Cláudia Barreto.

Rodrigo da Costa Araujo é professor de Literatura Infantojuvenil e Arte Educação na FAFIMA - Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Macaé. Doutorando em Literatura Comparada e Mestre em Ciência da Arte pela UFF. Coordenador de Língua Portuguesa do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental e Ensino Médio da Secretaria Municipal de Educação de Macaé/SEMED. Coautor das Coletâneas Leituras em Educação (2011), Literatura e Interfaces (2011) eLiteratura Infantojuvenil: diabruras, imaginação e deleite (2012) lançadas pela editora Opção.

2 comentários:

Denise Zuma disse...

É admirálvel sua maneira de lidar com as palavras de uma forma tão juvenil.Sou professora do 5º ano aqui na rede pública de Macaé e tenho encontrado dificuldades de repassar para os meus alunos, textos com essa linguagem. Parabéns pelo seu trabalho.

Rodrigo Araujo disse...

querida, obrigado pela gentileza!