segunda-feira, 28 de maio de 2012

DILEMA KAFKIANO NO CHILE: A INTERFERÊNCIA IMPERIALISTA ESTADUNIDENSE NOS GOVERNOS ALLENDE E PINOCHET


INTRODUÇÃO

Crer-se no progresso não significa que já tenha tido lugar qualquer progresso.
FRANZ KAFKA

A pesquisa realizada visa analisar, de forma sistemática e teórica, a prática do imperialismo estadunidense através do estabelecimento e consolidação, na segunda metade do século XX, de sua hegemonia com relação à América Latina. Para tanto, toma-se o Chile como um estudo de caso para ilustrar esta realidade, buscando-se especificar os elementos de dependência e hegemonia que avultam na emblemática intervenção norte-americana sobre o governo de Salvador Allende. A “Unidade Popular”, coalizão política vitoriosa nas eleições chilenas, possibilitou a Allende o exercício do poder entre 1970 e 1973, período que ficou conhecido, no que se refere à implantação de um regime socialista, como a “experiência chilena”. Tal qualificação se deve, basicamente, ao método político adotado pela Unidade Popular: participou de um processo eleitoral aos moldes liberais, vencendo-o, e exerceu o poder num sistema pluripartidário. Esse perfil distingue-se dos demais modelos socialistas, os quais, de uma forma ou de outra, tiveram que romper pela força com o paradigma vigente e exercer o poder num sistema de partido único. O processo revolucionário chileno não se iniciou pela tomada do poder pela força, mas, muito especificamente, pela assunção do poder a partir dos cânones liberais e pelo seu exercício em conjunto com outras correntes ideológicas: essa é a marca da via chilena.
No caso cubano deu-se justamente o inverso, o que o transformou num marco para o recrudescimento do uso da força pelo neocolonialismo norte-americano e tornou-se um sinal de alerta para que o “Tio Sam” aumentasse ainda mais sua vigília sobre o mundo ocidental. Por estas e outras razões que serão tratadas no decorrer do trabalho, a “experiência chilena” foi sendo sabotada e finalmente derrubada pelos interesses de poder norte-americanos, fazendo com que o processo de consolidação de um governo chileno que rompesse com os laços de dependência econômica e política com os EUA não obtivesse êxito.
Assim como a Unidade Popular e a massa chilena não alcançaram seus objetivos políticos e sofreram a imposição dos interesses das elites no seu tecido social, nas complexas tramas tecidas por Franz Kafka em sua obra literária, suas personagens são igualmente impotentes para conseguir atingir os objetivos colimados e normalmente sofrem com o sistema burocrático instalado na sociedade na qual vivem. Em seu livro O Castelo, a personagem principal busca sempre alcançar o topo de uma montanha onde se encontra um grande castelo, porém os indivíduos que residem na vila local sempre encontram uma forma de fazer com que ela não alcance seu objetivo. Em outra obra, A Metamorfose, Gregor Samsa, o caixeiro viajante que trabalha para sustentar os pais e sua irmã, acorda comicamente transformado num gigantesco inseto; por consequência, é demitido de seu emprego e desprezado pela própria família, que passa a considerá-lo “inválido”. Apesar de surreais, são obras que encetam uma profunda reflexão sobre a sociedade na qual vivemos. Neste trabalho, o caso chileno é comparado com o conto “Diante da Lei”[1], trecho de sua obra O Processo.
O resultado da pesquisa é estruturado em três capítulos que se entrelaçam em seu decorrer. Dividem-se da seguinte forma:
O primeiro capítulo é estritamente teórico, sendo apresentada a dependência latino-americana através do Aporte da Dependência, linha teórica desenvolvida por cientistas sociais e políticos latino-americanos. Assim, por essa via, analisa-se como se dá o imperialismo norte-americano amparado por sua posição de hegemon e abordam-se as categorias básicas necessárias para o entendimento das Doutrinas de Segurança Nacional (DSN)[2], mola mestre da política externa norte-americana para a América Latina no decorrer das décadas de 1960, 1970 e parte de 1980.
No segundo capítulo busca-se narrar e analisar os fatos que ilustram as diversas intervenções norte-americanas no governo de Salvador Allende, até mesmo antes de sua posse, pois já no pleito de 1970 alguns segmentos das elites chilenas, em conluio com a CIA[3], tentaram derrubar a sua candidatura. Não tendo êxito em obstar a eleição de Allende, o governo norte-americano passou a promover ações para desestabilizar o regime chileno, além de estabelecer uma aliança com as elites locais durante o governo da UP, o que resultou no golpe militar de Augusto Pinochet e na consequente derrubada e morte de Salvador Allende.
Finalmente, no terceiro e último capítulo, buscou-se explicar o apoio estadunidense à ditadura militar “pinochetiana”, principalmente através de sistemas de inteligência como a CIA, a DINA[4] e a Operação Condor[5], que funcionavam como mecanismos de repressão social sobre os setores da sociedade que se opuseram ao regime militar ditatorial.
Feitas estas considerações introdutórias, que desvelam a estrutura dessa pesquisa, seu viés teórico e as intenções de sua realização, pode-se passar diretamente à sua exposição.








CAPÍTULO PRIMEIRO
A DEPENDÊCIA LATINO-AMERICANA E A PRÁTICA HEGEMÔNICA ESTADUNIDENSE NO CONTINENTE AMERICANO

1.1- A Dependência latino-americana

A mera preservação da existência social exige, na livre competição, uma expansão constante. Quem não sobe, cai. E a expansão significa o domínio sobre os mais próximos e sua redução ao estado de dependência. [...] o que temos é um mecanismo social muito simples que, uma vez posto em movimento, funciona com a regularidade de um relógio.
NORBERT ELIAS, O Processo Civilizador.

A História das distintas sociedades humanas se desenrolou quase sempre imersa num dilema kafkiano. A imagem que Franz Kafka descreve acerca do homem que passa a vida querendo adentrar num recinto vigiado por um guarda, em cujo interior se encontrariam as realizações humanas, e a tentativa vã de subornar este guarda, que mesmo aceitando o suborno impede a entrada do insistente indivíduo até a sua morte, é uma parábola acerca dos conflitos de classe nos quais o homem esteve mergulhado na maior parte do tempo. Sempre há um grupo que detém o domínio das realizações sociais e que poderá pagar a “guarda” de seus benefícios para o seu próprio estrato social[6].
Essa parábola é, como toda a parábola, um simbolismo da realidade, uma forma crítica de representação do real. As várias formações sociais que se construíram através da História se estribaram, no mais das vezes, em regimes políticos que conferiram a uma elite o exercício do poder associado ao usufruto das riquezas geradas pelo trabalho social de todos. A dominação serve para estabelecer barreiras, controles, objetivando que uma minoria se beneficie do trabalho da maioria, mantida apartada do poder. Essa prática, em distintas vicissitudes e conjunturas, se estendeu ao longo da história do homem e a cada dia se reforça flagrantemente. Por todo o mundo. E o Chile não foi exceção. 
A América Latina, durante a maior parte do século XX e até os dias atuais, tem sido uma ferramenta essencial para o desenvolvimento do capitalismo norte-americano, através dos métodos imperialistas[7] e neocoloniais estadunidenses aplicados a esses países periféricos.
No Chile a história não foi diferente. O país sofria com a exploração das elites locais, cúmplices das elites hegemônicas, o que acarretava numa alta concentração da riqueza e, consequentemente, trazia a reboque os problemas sociais típicos dessa formulação econômica, como desemprego, crises econômicas cíclicas e deficiências nas áreas de saúde e educação, problemas que afetam, sobretudo, as camadas populares. Tais problemas são resultado de um processo histórico de dominação e exploração a que esta nação esteve sujeita e implicam em desigualdades de caráter estrutural no seu desenvolvimento, seja no âmbito social, político ou econômico. Torna-se necessária, antes de qualquer narrativa factual, a análise dessa relação Estados Unidos-América Latina, para o melhor entendimento dos episódios que se desenrolaram no Chile durante a segunda metade do século XX.
No sistema de relações internacionais entre esses países desenrola-se uma conjuntura explicada pelo Aporte da Dependência[8], visão teórica desenvolvida por um grupo de autores, os chamados dependentistas, como Ruy Mauro Marini, Perseu Abramo, Theotônio dos Santos, Teodoro Lamounier, Vânia Bambirra, Fernando Henrique Cardoso, Niemeyer Almeida Filho, Luiz Toledo Machado, dentre outros, e cuja ideia central é:



[...] a de uma situação na qual as economias de um grupo de países são condicionadas pelo desenvolvimento e expansão de outras. Uma relação de interdependência entre dois ou mais países ou entre estes países e o sistema mundial de comércio torna-se uma relação de dependência quando alguns países podem expandir-se por movimento próprio, enquanto outros, estando numa situação de dependência, só podem expandir-se como um reflexo da expansão dos países dominantes, os quais devem ter efeitos positivos ou negativos nos seus desenvolvimentos imediatos.[9]
Porém, destes autores, o que apresentou a definição mais objetiva e aceita durante o período de concretização do Aporte foi Theotônio dos Santos. “Ele vê a teoria da dependência como uma ‘visão da periferia’ da teoria do imperialismo” [10]- ou seja, em outras palavras, para ele – “... Ao entender a dependência e conceituar e estudar os seus mecanismos e sua força histórica pode-se expandir e reformular a teoria do imperialismo.” [11]
A política externa estadunidense foi moldada para construir a hegemonia norte-americana e assim legitimar a sua dominação sobre a América Latina[12]. Temos, dessa forma, o desenvolvimento de ideologias como a Doutrina Monroe[13]: “A América para os americanos”. Esta política estribou a atuação do governo estadunidense para eliminar a influência política europeia nos países americanos[14], para que os fados da América se adequassem aos interesses da política praticada pelo governo dos Estados Unidos. Sobre isso, Gerson Moura afirma que:
Tio Sam justificou seu intervencionismo de várias maneiras. O próprio Theodore Roosevelt disse que havendo no continente incidentes crônicos ou governos incapazes de manter a ordem, uma nação civilizada deveria intervir com poderes de polícia internacional para solver o problema. Ora, a Doutrina Monroe impedia que governos europeus assumissem esse papel policial nas Américas; portanto os Estados Unidos deveriam arcar com essa responsabilidade. [15]
A hegemonia dos Estados Unidos busca se aproveitar da instabilidade política e da fragilidade das administrações latino-americanas. Seu discurso baseia-se na liderança para conduzir a América ao desenvolvimento e ao progresso, afirmando os interesses comuns das nações como democracia, a fé cristã e o desenvolvimento econômico e social. Os que fossem contrários a esses ideais sofreriam a intervenção estadunidense, que os considera incapazes de conduzir o seu próprio desenvolvimento.
A dominação imperialista norte-americana se dá, sobretudo, pelo viés econômico. As empresas multinacionais estadunidenses são grandes empregadoras e geradoras nominais de divisas para os países periféricos, mas, em contrapartida, o lucro real é exportado de volta aos EUA, o que ocasiona um aumento da dívida pública desses países e a dependência econômica ao capital internacional.
Essa política imperialista no século XX se evidenciou nos diversos momentos em que os Estados Unidos interferiram na política das nações latino-americanas. Seja através de intervenções militares ou influenciando diretamente na política desses países, essas ações redundaram em inúmeros golpes de Estado e no estabelecimento de governos que se apoiavam nas relações de interdependência com os Estados Unidos, destarte não se tornando um embaraço para a consumação dos interesses nacionais norte-americanos. Nesse contexto, pode-se apontar a deposição de João Goulart no Brasil, em 1 de abril de 1964, através de um golpe de Estado articulado pelas elites nacionais, estadunidenses e o círculo militar brasileiro. As pesquisas históricas publicadas acerca do período da ditadura militar brasileira de 1964 são quase unânimes em apontar a importância da burguesia nacional na deflagração do golpe, assim como foi relevante o papel dos segmentos políticos civis conservadores[16].
Uma dessas intervenções políticas estadunidenses se concretizou com o apoio dado por Washington ao golpe militar contra o governo de Salvador Allende, primeiro presidente socialista eleito democraticamente. Além dos resquícios ideológicos do macartismo[17], essa interferência se deu pela ameaça que um governo socialista representava ao imperialismo estadunidense na região oeste da América Latina. O governo de Allende era amplamente apoiado pelas massas, e não sem motivos, pois a UP[18] representava uma política de transformação do modelo que levara o país a uma grave crise institucional e econômica. O seu discurso se calcava na igualdade social, na redistribuição das riquezas e nas mudanças sociais que beneficiassem as camadas populares. Isso de fato caracterizava um caminho democrático para a implantação do socialismo no Chile e aí jazia o receio estadunidense, pois, segundo Niemeyer Almeida Filho, “... o desenvolvimento na periferia só é possível no socialismo.” [19]
Uma das formas mais comuns de intervenção norte-americana na América Latina foi a conspiração, articulação e apoio a golpes militares para a derrubada de governos que não estivessem alinhados aos interesses dos EUA. Para a maior parte do oficialato das forças armadas desses países, o governo norte-americano oferecia oportunidades de cursos e estágios em centros de treinamento militar norte-americanos. Evidentemente que havia, subjacente, outras intenções além da mera política de boa vizinhança. Nesses centros de treinamento, como a Escola das Américas, no Panamá, ou Fort Bragg, nos EUA, além das atividades castrenses, era incutida na mente desses oficiais a doutrinação relativa à contenção do comunismo na região a partir dos postulados da Segurança Nacional, bem como ensinadas técnicas contra insurgências e táticas anti-guerrilha. Dessa forma, grande parte da oficialidade militar latino-americana estava técnica e ideologicamente preparada para manter seus governos concordes às políticas liberais norte-americanas ou derrubá-los, caso se afastassem desse parâmetro. Esses golpes foram comuns na segunda metade do século XX, tendo ocorrido em países como o Peru, Panamá, Bolívia, Argentina, Brasil, Chile, que será o caso estudado aqui, dentre outros. Contudo, antes de se estudar o caso do Chile, deve-se analisar as especificidades que caracterizam as ditaduras embasadas na Doutrina de Segurança Nacional.

1.2- As Ditaduras com Base na Doutrina de Segurança Nacional na América Latina

A América para os americanos!
JAMES MONROE

O principal motivo do “pacto populista” não se ter sustentado na América Latina a partir do final dos anos 1950, reside nas alterações ocorridas no processo de acumulação de capital nesses países. A industrialização ocorrida em algumas dessas nações se fez atrelada aos interesses das economias centrais e das oligarquias locais cooptadas e associadas àquelas. A “ordem padrão” historicamente estabelecida foi rompida para dar passagem à modernização do capitalismo na América Latina[20].
O populismo estava fadado ao colapso, pois dependia de três fatores que deveriam ser constantes nesse processo:
1-      Transferência de renda dos setores primário-exportadores, que era, por natureza, limitada;
2-      Integração latino-americana, o que afinal revelou-se inviável e fracassou (como exemplo, temos o Pacto Andino, que será visto mais à frente);
3-      Aliança entre a burguesia industrial, a tecnoburocracia e os trabalhadores, que só podia subsistir enquanto a transferência interna de renda pudesse ser realizada, o que não era de interesse para as oligarquias, pois os trabalhadores necessitam melhorias de natureza social cujos investimentos atravancariam o processo de acumulação primitiva no Estado.[21]
Daí o porquê do pacto populista ser substituído por outro, o pacto autoritário capitalista-tecnoburocrático, que se constitui pela aliança das burguesias periféricas latino-americanas com as burguesias dos países economicamente centrais, majoritariamente com a burguesia norte-americana, trazendo a reboque, como sócia menor, a tecnoburocracia, da qual os militares são parte. Dessa forma buscam dar continuidade ao processo de acumulação primitiva de capital na América Latina.
Ou seja, essas ditaduras civis-militares que se estabeleceram no seio do universo latino-americano, surgiram a partir da crise do modelo nacional-desenvolvimentista, articulado entre as burguesias nacionalista e progressista e o proletariado, aliança cuja intermediação era realizada pelo Estado “populista”. Essas novas ditaduras tecnocráticas já se instalam com um mecanismo ideológico de defesa, a Doutrina de Segurança Nacional. Os Estados Unidos da América se apresentam como o “controlador” e berço da Segurança Nacional.
A Doutrina de Segurança Nacional se inspira na guerra antirrevolucionária tendo entre seus antecedentes a contra-insurgência dos EUA e as teorias da OAS francesa na repressão aos movimentos que buscavam a independência da Argélia. A maioria dos oficiais militares da América Latina estudou na Escola das Américas, nos EUA, onde eram instruídos a levar a cabo, na guerra interna, de mecanismos de Terror de Estado (TE), ou seja, a não fazer aquilo que se poderia denominar de uma guerra convencional já que o “inimigo” está “escondido na multidão”, sendo então necessário cortar todo e qualquer apoio que se possa receber dentro do país nem que para isso fosse necessário agir contra a lei e contra os direitos humanos.[22]

No trecho em epígrafe fica patenteado o uso ilegítimo da força, legalizada por normas jurídicas de exceção que ampliam a faculdade de ação discricionária do Estado e dão carta branca a práticas violadoras dos direitos humanos sob o manto da manutenção da ordem e da segurança nacional[23]. Assim, práticas como torturas, prisões arbitrárias sem os respectivos mandados e exacerbação do poder de polícia do Estado, investigações sumárias sem acompanhamento judiciário, cortes de exceção, ganham mais evidência e se tornam comuns, trazendo para o continente americano regimes que se caracterizam como estados policiais. O governo de Augusto Pinochet no Chile teve exatamente esse perfil, não medindo esforços para manter o establishment através de seu aparato repressivo.
Joseph Coblin afirma que a Doutrina de Segurança Nacional apresenta-se como três conceitos básicos: (1) a geopolítica, (2) a bipolaridade e (3) a Guerra Total.
Pelos cânones da Geopolítica, a nação se constitui em um único projeto: o desejo de ocupação e domínio do espaço. Diz Comblin:
A Nação age pelo Estado: como vontade, poder e poderio, ela se exprime pelo Estado. É impossível encontrar ou fazer uma distinção real entre a Nação e o Estado: a Nação acrescenta ao Estado os materiais, uma população, um território, recursos, apenas o passivo. O que faz formalmente a Nação não constitui formalmente o Estado. É esse o conceito de Nação com o qual joga a Doutrina de Segurança Nacional.[24]
Já o conceito de bipolaridade faz remissão às características que desencadearam a Guerra Fria, com a divisão geopolítica do planeta em dois blocos: o Ocidental, essencialmente “cristão e democrático” e o bloco Oriental, de viés político comunista. É de desígnio das nações o posicionamento em um dos blocos, “sendo que a escolha pelo Ocidente é legitimada através de uma pretensa superioridade moral do mesmo frente aos comunistas ou por um certo ‘destino manifesto’ que daria às nações motivos para desde sempre se oporem ao comunismo.”[25]
E por último, o fundamento de “Guerra Total” que pressupõe que se devem mobilizar contra o “comunismo internacional” todas as forças capazes de detê-lo, para esse fim sendo engajadas todas as populações envolvidas na questão. Esse conceito tem suas raízes na Doutrina Truman[26] e mais longinquamente no livro do general alemão Eric Lüdendorff intitulado Der Totale Krieg, lançado na Alemanha em 1936, sob a égide do nazismo.
Por seguinte, a análise de como os EUA agiram com base em tais doutrinas no território chileno.




CAPÍTULO SEGUNDO
A INTERFERÊNCIA NORTE-AMERICANA NO GOVERNO DE SALVADOR ALLENDE

2.1- A intervenção norte-americana no pleito de 1970 e na posse de Salvador Allende

De los trabajadores es la victoria. Del pueblo sufrido que soportó, por siglo y medio, bajo el nombre de Independencia, la explotación de una clase dominante incapaz de asegurar el progreso y de hecho desentendida de él. La verdad, lo sabemos todos, es que el atraso, la  ignorancia, el hambre de nuestro pueblo y de todos los pueblos del tercer mundo, existen y persisten porque resultan lucrativos para unos pocos privilegiados.
SALVADOR ALLENDE, La vía chilena hacia el socialismo


A campanha de Salvador Isabelino del Sagrado Corazón de Jesus Allende Gossens demonstrou claramente a rivalidade política entre os Estados Unidos da América e a União Soviética durante o início da década de 1970. Devido a seu posicionamento político no campo socialista[27], os EUA, por orientação direta de seu presidente Richard Nixon ao seu Assessor de Segurança Nacional Henry Kissinger, agiram no intuito de prejudicar a sua campanha e assim impedir sua eleição.
Durante o período da campanha eleitoral para a presidência do Chile em 1970, a CIA e a KGB[28] investiram uma quantidade significativa de dinheiro nessa disputa. Ao contrário das eleições de 1964[29], quando a Casa Branca patrocinou a candidatura de Eduardo Frei, em 1970 a Agência Central de Inteligência estadunidense não investiu na candidatura de um político, mas espalhou por todo o Chile uma “campanha do medo”, visando à derrubada da candidatura de Salvador Allende. Nessa campanha anti-Allende, a CIA despendeu UU$ 450,000 para veicular propaganda maciça concatenando a vitória de Allende a uma pretensa violência e repressão política durante seu suposto governo. [30] A campanha da CIA fracassou. O diretor da CIA naquele período, Richard Helms, lamentou-se pela Casa Branca, pois, segundo ele, o chefe do Executivo norte-americano ordenara-lhe que “derrotasse alguém com nada”.
De outro lado, o investimento Soviético na campanha de Salvador Allende também foi maciço e de proporções paralelas aos gastos da CIA. Graças ao pedido de Allende para o seu contato pessoal da KGB, Svyatoslav Kuznetsov, foi possível o aporte de US$ 450,000 em sua campanha. Após a vitória de Allende, o presidente estadunidense Richard Nixon teria ficado enfurecido com a falha nas ações secretas da CIA.
A vitória de Allende não se deu por maioria absoluta e, dessa forma, o pleito de 4 de setembro de 1970 foi decidido num segundo turno. Pela legislação eleitoral chilena, a primeira fase do processo eleitoral se dava por votação popular; caso nenhum candidato obtivesse maioria absoluta, uma segunda fase era realizada envolvendo os dois candidatos mais votados, só que dessa vez por eleição indireta no Congresso. Salvador Allende saiu-se vitorioso também nesta segunda fase, como demonstram as tabelas abaixo[31]:

Tabela 1: Votação Popular
Candidato
Partido/Coalizão
Votos
%
Resultado
Salvador Allende
Unidade Popular
1.075.616
36,63%
Decisão no Congresso
Jorge Alessandri Rodriguez
Partido Nacional
1.036.278
35,29%
Decisão no Congresso
Radomiro Tomic
Partido Democrata Cristão
824.849
28,09%

Total de votos válidos
2.936.743
100%
Votos em branco
7.861
0,27%
Votos Nulos
18.139
0,61%
Total de votos
2.962.743
100%
Eleitores registrados
3.539.747
83,70%de participação


Tabela 2: Votação no Congresso
Candidato
Partido/Coalizão
Votos
%
Resultado
Salvador Allende
Unidade Popular
153
78,46%
Eleito
Jorge Alessandri Rodriguez
Partido Nacional
35
17,95%

Votos em branco
7
3,59%
Total de votos
195
100%
Eleitores ausentes
5
2,50%
Eleitores
200
97,50% de participação



Nessa conjuntura, se concretizou oficialmente a vitória de Salvador Allende e da Unidade Popular no Chile; todavia, como de praxe, a intervenção americana não cessou com a decisão do pleito de 1970.
No mês de setembro de 2008 se completava o 35º aniversário do golpe militar no Chile e da morte de Salvador Allende. Segundo alguns jornais que circularam neste período, alguns documentos secretos vieram à luz, revelando planos para impedir a posse de Salvador Allende; tais documentos foram liberados no dia 10 de setembro de 2008 por órgãos públicos americanos e dentre esses planos encontrava-se o sequestro de um dos principais generais chilenos, René Schneider, como mostra a notícia do jornal “Estado de São Paulo”:
Altos funcionários norte-americanos discutiram o desejo de impedir a posse do então recém-eleito presidente chileno, o esquerdista Salvador Allende, em 1970. A revelação está em documentos tornados públicos hoje. Em um trecho, William Rogers, ex-secretário de Estado do presidente Richard Nixon, advertiu sobre as ações secretas dos Estados Unidos para impedir a posse de Allende. O governo americano antes havia ressaltado a importância da realização de eleições democráticas. A Agência Central de Inteligência dos EUA (CIA, sigla em inglês) por fim apoiou o sequestro do principal general do Chile, René Schneider, para impedir que Allende chegasse ao poder. "Após tudo que dissemos sobre eleições, se na primeira vez que um comunista ganha os EUA tentam evitar o processo constitucional de ocorrer, nós ficaremos muito malvistos", disse Rogers, que morreu em janeiro de 2001. O Arquivo de Segurança Nacional publicou as transcrições na véspera do 35º aniversário do golpe que resultou na morte de Allende. O registro ocorreu porque Henry Kissinger gravou secretamente todas as suas ligações após tornar-se conselheiro de segurança nacional, em 1969. Seus auxiliares transcreveram as chamadas e depois destruíram as fitas. A CIA admitiu posteriormente que apoiou o sequestro de Schneider, pois o general se recusou a usar o Exército para evitar que o Congresso confirmasse a eleição de Allende. A tentativa de sequestro falhou - o militar foi morto na operação - e o nome de Allende foi confirmado. Três anos depois e nove semanas antes do golpe, Nixon culpou o então diretor da CIA, Richard Helms, e o ex-embaixador dos EUA Edward Korry pelo fracasso na tentativa de impedir a posse de Allende. "Eles estragaram tudo", disse o presidente a Kissinger, em outra das conversas agora liberadas. Na mesma ligação, Nixon diz a Kissinger: "Eu acho que aquele chileno pode ter alguns problemas". Kissinger retrucou: "Sim, ele tem grandes problemas. Ele definitivamente tem grandes problemas."[32]

As ações para impedir a eleição e posse de Allende foram mal sucedidas, e ele pode assumir o cargo para o qual fora democraticamente escolhido. Mas isso não significou um retraimento das ações golpistas, nem por parte do governo norte-americano e nem de seus aliados na elite local. A conspiração para desestabilizar e pôr termo ao governo da Unidade Popular prosseguiu até que ele fosse derrubado.

2.1 - A “experiência chilena” e sua queda

É difícil encontrar alguém com o espírito de luta, a coragem e a história de Allende. Ele foi um homem que, na verdade, teve o nome marcado na história: democraticamente a esquerda chegou ao poder, e pelas bombas foi apeada do governo.
PEDRO SIMON – Senador (PMDB-RS)

Salvador Allende tomou posse em 4 de novembro de 1970 como o 45º presidente do Chile, tornando-se o sucessor no cargo antes ocupado pelo democrata-cristão Eduardo Frei Montalva.
O nacionalismo chileno no período do governo de Salvador Allende foi de caráter popular, liderado por grupos políticos de orientação socialista/comunista. Essa coalizão era formada pelo Partido Socialista (PS), Partido Comunista (PC), Partido Social-Democrata, pelos Radicais, pela Ação Popular Independente e pelo Movimento da Ação Popular Unificado (MAPU), reunidos todos sob a denominação de Unidade Popular (UP).
Durante as décadas de 1960 e 1970, com a situação de instabilidade política e de dependência econômica dos países sul-americanos, a UP aliou-se com os governos da Bolívia, Peru, Equador e Colômbia num projeto regional que visava a promover o desenvolvimento dessas nações por meio de uma política nacionalista que tinha como principal meta reduzir a interferência externa e promover a integração dos países membros. Assim, em 1969, foi implantado entre esses países o Pacto Andino.

A elaboração e a assinatura do Pacto Andino constituíram tentativas de criar um mercado interno mais amplo com as populações combinadas da região – e daí, em parte, substituir o mercado americano em seguida ao fracasso das reformas anunciadas pela Aliança para o Progresso. [33]
A atuação do Pacto falhou em proteger o bloco do controle econômico dos EUA baseando-se na integração regional, que visava à eliminação de barreiras ao comércio interno na América Andina, ao estabelecimento de uma tarifa externa comum e a uma economia latina conjunta. Dessa forma, o Pacto Andino teoricamente teria mais autonomia e reduziria consideravelmente a interferência estadunidense na América. Mas não foi o que ocorreu.
Salvador Allende se deparou com vários e graves problemas sociais e econômicos deixados por seus antecessores. Seu governo se iniciou mergulhado numa crise que atingia a economia chilena, sobretudo pelo caráter de transição para uma industrialização preparada pelos Estados Unidos por meio de suas políticas imperialistas, objetivando sempre alcançar um desenvolvimento relativo, mas sem que isso significasse o fim do subdesenvolvimento econômico da América[34].
Lo que ha fracasado en Chile es un sistema que no corresponde a las necesidades de nuestro tiempo. Chile es un país capitalista dependiente de lo imperialismo, dominado por sectores de la burguesía estructuralmente ligados al capital extranjero, que no pueden resolver los problemas fundamentales del país, los que se derivan precisamente de sus privilegios de clase a los que jamás renunciarán voluntariamente. Los monopolios norteamericanos, con la complicidad de los gobiernos burgueses, han logrado apoderar-se de casi todo nuestro cobre, hierro y salitre. Controlan el comercio exterior y alicatan la política económica por intermedio de lo Fondo Monetario Internacional y otros organismos. Dominan importantes ramas industriales y servicios; gozan de estatutos de privilegios, mientras imponen la devaluación monetaria, la reducción de salarios y sueldos y distorsionan la actividad agrícola por la vía de los excedentes agropecuarios.[35]
A política da UP era de forte oposição ao imperialismo estadunidense, que aliado com a burguesia chilena, promovia graves perdas ao país pela dependência econômica e, principalmente, pelo agravamento das questões que envolviam os problemas sociais, como o desemprego e as deficiências com moradia e educação, questões que atingiam principalmente nas camadas populares. A UP desenvolvia um governo socialista no qual a prioridade era para a solução desses problemas sociais. Alberto Aggio observa as principais políticas do período Allende:
[...] objetivava-se fundamentalmente: resolver os problemas imediatos das grandes maiorias; garantir emprego a todos com remuneração adequada; possibilitar um crescimento econômico rápido com o máximo desenvolvimento das forças produtivas; ampliar e diversificar as exportações, abrindo novos mercados; e promover a estabilidade monetária. [36]
Nessa conjuntura, observamos a formação de um governo de forte orientação nacionalista e de cunho esquerdista. Para os Estados Unidos, os governos nacionalistas representavam grandes perdas para a sua economia, devido às restrições aos investimentos do capital internacional, à redução dos lucros e ao enfraquecimento de sua posição hegemônica sobre o cone sul. Logo que esses movimentos nacionalistas começaram a desabrochar na América Latina, os EUA mobilizaram forças para derrubar esses governos. Isso ocorre em associação com as elites locais, que também se vêem prejudicadas pela política nacionalista. A partir desse entendimento, podemos notar a interferência e o apoio dos Estados Unidos para o desbanque desses governos latino-americanos e a ascensão militar ao poder, para que novamente as políticas econômicas se mantenham paralelas aos interesses estadunidenses. O Chile não foi uma exceção nesse contexto.
CAPÍTULO TERCEIRO
AS ALIANÇAS INTERNACIONAIS NA DITADURA DE AUGUSTO PINOCHET

3.1 - A influência estadunidense na formação da ditadura chilena: Augusto Pinochet   chega ao poder

Una planta europea trasplantada a tierra americana ya no es la misma planta ni va dar los mismos frutos.
ALAIN ROUQUIÉ,
Dictadores, militares y legitimidad en América Latina


Para os Estados Unidos da América, o receio de vir a acontecer pela América Latina o que havia ocorrido em Cuba[37], com a consequente propagação da ideologia socialista pelo continente, havia se tornado algo a que se dar atenção, pois, como vimos, a Unidade Popular de Allende era de orientação socialista/comunista. O Partido Comunista e o Partido Socialista eram as duas maiores agremiações da coligação e tinham sua ideologia definida pelo cunho socialista, o que acarretava em oposição ao imperialismo estadunidense no Chile.
A massa popular se identificava com a UP, pois esta significava a possibilidade de mudanças na conjuntura política, uma saída para a situação de permanente exploração da classe trabalhadora. Para a UP, a adesão das massas significava legitimar o caminho para a construção do socialismo no Chile.
Daí se desencadeia o processo de intervenção estadunidense nesse país. As ações golpistas dos setores dominantes nacionais e norte-americano se mostraram fundamentais para o sucesso dos militares, pois só assim se impediria a consolidação de uma força contra-hegemônica, como a UP, que rompesse o bloco histórico já cristalizado há anos na nação. Para tanto era necessário que os conservadores se mantivessem ativos no país, com o objetivo de dificultar e enfraquecer os projetos da Unidade Popular. O sucesso do Chile sob Allende era um desastre para os setores conservadores e seus aliados em Washington.
Como foi visto no segundo capítulo, os EUA olhavam a política da UP como um abalo à “ordem do continente americano”. A forma de agir da coalizão afrontava toda a doutrina que sempre norteara as ações da política externa norte-americana; os seus objetivos, se colimados, contrariariam os interesses políticos e econômicos dos EUA e seriam um exemplo desastroso que poderia incendiar o cone sul, sacudindo o jugo americano e determinando o fim da influência determinante deste país na região. E isso, nem os Estados Unidos e nem as elites locais iriam permitir sem reação.
Dentre os grupos que compunham a ala conservadora da direita chilena, encontrava-se o Partido Democrata Cristão, que representava o segmento da burguesia industrial, dos comerciantes, dos prestadores de serviços, dos interesses do capital estrangeiro e de uma pequena parte da pequena burguesia, os profissionais liberais.

Os cristãos democratas representavam a ala da direita que queria utilizar o golpe para reestabelecer um regime parlamentar capitalista expurgado da esquerda e capaz de organizar uma ordem social na qual o Estado burguês nacional e o capital estrangeiro teriam plena liberdade para explorar o país. [38]

Junto a eles, na ala direitista, estava o Partido Nacional, que representava os mesmos interesses e também os grandes latifundiários. Esses, sobretudo, eram os que mais apoiavam um golpe de Estado, pois obtinham a cumplicidade da minoria dos eleitores e não viam possibilidade de entrada no poder por meios democráticos.
Por último, havia o grupo “Pátria e Liberdade”, composto pela ala militar, que envolvia praticamente todos os seus segmentos. Eles desempenharam um papel fundamental no período pós-golpe, desenvolvendo a repressão contra a resistência da esquerda.
A burguesia chilena passou a desenvolver ações para desestabilizar o governo da UP; dessa forma, promoveu a paralisação das indústrias, a redução da produção, a suspensão de empréstimos e o aumento das reivindicações pelo atendimento aos seus interesses corporativos[39]. Isso enfraqueceu o governo de Salvador Allende, que logo se tornou alvo da pressão popular. Essa situação de crise estimulada pela burguesia foi o estopim conducente à queda de Salvador Allende, à instalação do regime militar e à volta do imperialismo estadunidense no país:

A derrubada de Allende levou a uma inversão da política nacionalista defendida por ele: começando com a devolução de propriedades estatizadas, continuou com uma política de portas abertas ao investimento estrangeiro, rompendo a base do pacto regionalista e roubando-lhe toda a razão de ser.[40]

Por mais surpreendente que pareça, a peça principal para o desencadear do golpe foi a pequena burguesia. Com o governo de Allende, essa pequena burguesia obteve vantagens através da concessão de empréstimos, apoio ao desenvolvimento do comércio nacional e a melhoria do poder aquisitivo dos chilenos. Porém, essa classe tinha o receio de seus estabelecimentos serem estatizados pelo possível sistema socialista. Por esta razão, a pequena burguesia aliou-se às elites a fim de receber apoio dos Estados Unidos. Não obstante, isso ocorreu, e o golpe também.
A queda de Allende [...] foi resultado de ações legais e extralegais da direita chilena com inegável apoio externo. Elas visavam desagregar paulatinamente a legitimidade do presidente por meio de um duplo processo: ataque frontal à legalidade das ações governamentais e, simultaneamente, recrudescimento da polarização ideológica objetivando a neutralização da Democracia Cristã (DC), partido que ocupava o centro do espectro político chileno. O objetivo era levar a situação a um ponto de desinstitucionalização para, em seguida, desfechar o golpe. [41]

O regime militar de Augusto Pinochet Uriarte foi marcado pela violência e repressão das agências de inteligência[42], que mantinham um forte vínculo com suas congêneres estadunidenses[43]. Essa ação golpista representou a ruptura com as diretrizes do Pacto Andino e um redirecionamento da política internacional chilena, agora paralela à política dos EUA.
O governo de Pinochet implantou uma política de abertura às multinacionais e ao capital estrangeiro, e os benefícios antes destinado sàs camadas populares retornaram às mãos da classe burguesa[44]. Parte dessas massas que não concordavam com o regime foram taxadas de comunistas e subversivas. Esse evento marcou o colapso do nacionalismo na América Latina de então e demonstrou a essa mesma América Latina a sua impotência ante o grande poder imperialista e hegemônico dos EUA. A ditadura tem seus reflexos presentes ainda hoje: seus sucessores, os presidentes da era pós-Pinochet, têm sido, sem exceções, políticos simpatizantes ou alinhados ao neoliberalismo[45].
 Para um melhor entendimento da interferência e influência norte-americanas no território chileno, será feita a seguir uma análise sobre a situação em que se encontravam os investimentos estadunidenses, os setores de repressão e as agências do sistema de inteligência.

3.2- A Dirección de Inteligencia Nacional (DINA), a Operação Condor e seu papel na repressão política durante a ditadura Pinochet

O desejo de todo Estado e de seus governantes é alcançar uma condição de paz perpétua, através da conquista de todo o mundo.
IMMANUEL KANT, A Paz Perpétua: um projeto filosófico.

Será estabelecida aqui uma discussão sobre como algumas agências do sistema de inteligência chileno, aliadas às agências estadunidenses[46] e à Operação Condor, colaboraram para o funcionamento dos organismos de repressão (e agiram como tal) para manter a “ordem” no Chile e na América Latina.
A existência de serviços de inteligência chilenos é algo relativamente recente, pois apenas em 1973, logo após a concretização do golpe militar, “teve início a elaboração do sistema que seria responsável por assegurar a permanência do novo regime e reprimir/exterminar os grupos que poderiam apresentar qualquer tipo de resistência ao regime”[47]. Para desempenhar tal tarefa foi criada a Secretaria Nacional de Detenidos (SENDET), que possuía um Departamento de Inteligência responsável por:
[...] fijar las normas por las cuales se realizan los interrogatorios de los detenidos, determinar el grado de peligrosidad de éstos y mantener una coordinación permanente con los servicios de inteligencia de las Fuerzas Armadas, de Carabineros e Investigaciones, con el fin de intercambiar y mantener al día las informaciones de que disponen.[48]
O general Augusto Pinochet transformou o Departamento de Inteligência da SENDET num organismo autônomo, centralizado, com recursos próprios e subordinado diretamente à presidência da república. Sua alegação para efetuar essa mudança administrativa foi a de que esse departamento era ineficiente operando subordinado à SENDET. Esse órgão público se transformou na agência conhecida como Dirección de Inteligencia Nacional (DINA) em 1974. Foi assinado pelo ditador chileno o Decreto 521 que:
[...] responsabilizava a DINA por colaborar com o governo chileno de forma imediata e permanente, por proporcionar de forma sistemática e devidamente processada, toda informação requerida, no sentido de adequar suas resoluções no campo da segurança e do desenvolvimento nacional, e por adotar as medidas necessárias ao resguardo da “segurança nacional” e ao desenvolvimento do país. [49]
Nessa conjuntura, observa-se que a DINA se tornou o principal organismo de inteligência governamental. O órgão foi comandado pelo coronel (depois general) Manuel Contreras[50], ficando responsável pela coleta e reunião de informações. A DINA foi uma instituição que dependeu diretamente do general Augusto Pinochet, pois de acordo com o general Gustavo Leigh, um dos principais articuladores do golpe: “nadie de la Junta podía meterse en la DINA”.[51]
Uma vez instalada, a DINA assumiu a responsabilidade pela repressão, até então desenvolvida por vários ramos das Forças Armadas e pelos policiais carabineros (que inclusive continuaram suas operações como a principal força policial do país). Assim, a DINA passou a “interrogar”, classificar e separar os indivíduos recolhidos nos principais centros de detenção existentes. [52] Para fazer valer seu papel, a DINA desenvolveu uma série de tarefas como o controle dos registros públicos, o estabelecimento de uma rede de colaboradores dentro dos setores públicos e dos meios de comunicação, grampeamento dos serviços telefônicos e intervenções em outros serviços de comunicação. Era igualmente responsável pela opressão no setor financeiro, pela propaganda e pela repressão propriamente dita, além de se associar com outros serviços de inteligência no exterior, tais como organizações de inteligência da Coréia do Sul, Irã, Alemanha, Israel, etc. Porém, seu principal vínculo era com a CIA, dos EUA. A CIA foi responsável pelo treinamento da maioria de seus membros e a apoiava com um grande suporte financeiro para que mantivesse suas atividades no território chileno.
As operações da DINA não se efetivavam apenas dentro do Chile. Dentre as operações internacionais por ela organizadas, estão o caso do assassinato do general Carlos Prats e sua esposa em setembro de 1974 em Buenos Aires[53] e o assassinato de Orlando Letelier e sua secretária Ronnie Moffit em Washington em 1976, essa última operação já desfechada sob a égide da Operação Condor. [54]
Também foi projetado um sistema de inteligência e repressão/extermínio a partir de inter-relações entre alguns países do cone sul: a Argentina, o Brasil, o Chile, o Paraguai e o Uruguai. Esse projeto foi chamado de Operação Condor e era uma unidade concreta do Departamento Exterior da DINA. Essa operação tinha como objetivo coletar informações, entravar meios comunicativos, efetuar apreensões, ou seja, também era um mecanismo de inteligência e operações clandestinas, porém agia em “toda” a América Latina. E até mesmo fora dela, como no caso do assassinato de Letelier.
Esta operação “mantinha secretamente vários centros de reclusão onde a prática de tortura era a regra e várias medidas eram tomadas para manter o caráter clandestino desses lugares”.[55] Como foi visto no segundo capítulo, suas atividades também eram amparadas pela Doutrina de Segurança Nacional e, no Chile, legalizadas pelo Decreto Lei 1.009 de 08 de maio de 1975, o qual lhe deu poderes para realizar toda uma gama de operações de informações e segurança. A DINA e a Operação Condor desencadearam uma verdadeira guerra dentro do país, perpetrando a sumária eliminação de setores considerados inimigos do Estado.
Todo esse aparato policial financiado pelas elites em defesa de seus interesses garantiu a supremacia do sistema capitalista dependente na América Latina (e aqui especificamente no Chile). Ao sistema não importa a exclusão da maioria da sociedade pela miséria, desemprego ou alienação, mas sim manter de pé as suas relações de poder cristalizadas num bloco histórico monolítico. Qualquer ameaça a esse establishment deve ser imediatamente esmagada. Os fatos o demonstram, assim como Kafka o faz em sua literatura surrealista. Concretiza-se, desta forma, o dilema kafkiano no Chile, onde a massa popular tentou adentrar as portas da política social e da democracia, mas foi impedida pelas elites que conseguiram pagar a “guarda” do antigo sistema e manter intactos os seus interesses. Como escreveu Franz Kafka em seu conto, o homem ainda padece na tentativa vã de entrar nas portas da lei, pois o guarda sempre impede a entrada do insistente indivíduo até a sua morte.
CONSIDERAÇÕES FINAIS

Só os mortos viram o fim da guerra.
PLATÃO

Não dá para apartar o caso chileno do contexto global. Ficou claramente demonstrado, ao longo dessa pesquisa, que o movimento da acumulação de forças pelo Estado nacional está articulado à lógica de acumulação de capital numa escala planetária. Por isso é que para uma compreensão apurada da história do movimento de capitais entre os blocos econômicos, é necessário entender a história dos países (aqui o Chile) e regiões (a América Latina) que no tempo longo conduziram ou sofreram as ações do processo de gestão do capitalismo. Os termos de troca estão condicionados pela compulsão dos Estados hegemônicos (neste caso, os Estados Unidos) à destruição das economias nacionais da periferia, à imposição do flagelo da dívida e da pobreza e à repressão contra quem contrariar esta lógica. O sistema mundial permanece como uma economia global capitalista, baseada numa divisão dual de trabalho, trocas desiguais e um sistema interestatal.
O movimento de integração dos países centrais e periféricos em blocos econômicos, e destes com a lógica do capitalismo global, foi perquirido de forma a demonstrar as noções de dependência, acumulação, democracia e superexploração, tão claras no caso chileno. A luta de Allende e da UP contra o bloco histórico então vigente no Chile e a longa e agoniada ditadura chilena, dificultaram uma maior nitidez nas propostas contidas na frente de oposição ao autoritarismo. Assim, sistema mundial, desenvolvimento e dependência, elementos complementares e contraditórios, fontes de compreensão da história das populações marginalizadas e dos países mantidos sob poderosa tutela institucional, e controle econômico/militar do centro nervoso da economia mundial, são as chaves iniciais para o entendimento dos marcos teóricos do aporte da dependência, que explicam as tragédias sociais latino-americanas como um todo, e a chilena em particular. Num trecho decisivo de uma das obras de Theotônio dos Santos, o autor faz a síntese dessa questão: “Marx sempre entendeu a formação do capitalismo como a dialética entre a economia mundial, como fenômeno independente, e o conjunto das economias nacionais em competição, apoiando-se em seus Estados Nacionais”.[56] Aí jaz a chave para a compreensão de fenômenos históricos como os aqui narrados acerca da América Latina e do seu hegemon.






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[1] Ver ANEXO IV: Conto “Diante da Lei” – Franz Kafka.
[2]As Doutrinas de Segurança Nacional surgem nos quadros da Guerra Fria e têm como base comum a política de contenção ao pretenso expansionismo soviético por via do ideário comunista. Essa política de contenção foi desenvolvida em 1947, no governo Truman, a partir das ideias do embaixador norte-americano George Kenan e materializadas por seu Secretário de Estado Dean Acheson. Tal política teve seguimento e foi aprimorada no governo Eisenhower pelo seu Secretário de Estado, John Foster Dulles e se manteve como base da política externa norte-americana por quase toda a Guerra Fria. No que diz respeito aos países latino-americanos, traduziu-se nas chamadas Doutrinas de Segurança Nacional, que visavam impedir a existência na região de governos alinhados com o bloco oriental. Isso é em parte verdadeiro se levarmos em consideração os interesses geoestratégicos norte-americanos no continente americano; mas serviu, muito mais, para afastar qualquer erupção política, mesmo não comunista, que de alguma forma ameaçasse os interesses estratégicos e econômicos dos EUA na área. Assim, Washington agiu de forma a manter as elites políticas desses países sob sua tutela, investindo maciçamente no controle e treinamento ideológico dos aparatos militares desses países, bem como formando em suas universidades pessoas que compusessem seus quadros de governo. Qualquer contestação ao establishment era considerada como subversão da ordem e uma ameaça à segurança nacional, o que detonava uma rápida e violenta repressão contra o “inimigo interno”; para isso foram desenvolvidos e articulados entre si organismos de informação e contra-informação, mais facilmente estabelecidos com a estruturação de regimes ditatoriais, via de regra militares.
[3] CIA, sigla de Central Intelligence Agency (Agência Central de Inteligência), órgão do governo norte-americano encarregado das ações na área de espionagem e de operações de informação e contra-informação.
[4]DINA é a sigla de Dirección de Inteligencia Nacional, a tristemente famosa agência de informações e contra-informações da ditadura militar chilena comandada pelo Coronel Manuel Contreras.
[5]Ficou conhecida como Operação Condor a aliança entre os serviços de inteligência (conhecidos como “comunidade de informações”) das ditaduras militares do cone sul. Essa coalizão se formalizou a partir de 1975, por iniciativa do governo chileno, e teve a pronta adesão dos governos do Uruguai, Argentina, Paraguai e Bolívia. O Brasil também colaborou, mas à distância. Essa estrutura operacional teve o pronto aval do governo dos EUA, porém o perdeu quando passou a executar ações fora do território latino-americano, como o assassinato do ex-chanceler chileno Orlando Letelier, perpetrado em Washington por meio da detonação de uma bomba em seu carro, fato ocorrido nas cercanias da Casa Branca. Para maiores informações sobre a Operação Condor, ver DINGES, John. Os Anos do Condor. São Paulo, Companhia das Letras, 2005.
[6]KAFKA, Franz. “Diante da Lei”. In: CARONE, Modesto (org), Franz Kafka: Contos. Rocket Edition, Visual Books Online M&M Editores Ltda., 1999,pp. 14-15.
[7] O novo imperialismo beneficia a alta burguesia das grandes potências, gerando mercado para a produção e oferecendo novos locais para emprego do excedente do capital. Esse fato se explica pela transformação ocorrida no capitalismo durante a Segunda Revolução Industrial, quando a produção e o capital concentraram-se em grandes monopólios e os banqueiros e industriais uniram-se, dando origem a uma nova modalidade de capitalismo, o financeiro.
[8] “O aporte sugere um conjunto de aspectos que não chega a caracterizar uma teoria, o que exigiria objeto e método de tratamento em comum. Ao contrário disso, o que ficou conhecido como Aporte da Dependência foi um conjunto de estudos que abordavam sim uma mesma manifestação fenomênica, porém sem homogeneidade metodológica.” ALMEIDA FILHO, Niemeyer. “O debate atual sobre a dependência”. In: Revista Soc. Bras. Economia Política. Rio de Janeiro, nº 16, junho de 2005, p. 32.
[9] Idem, p. 33.
[10] Ibdem.
[11]SANTOS, Theotônio dos. “Strucures of Dependence”. In:The American Economic Review. New York, 1970. p. 73. Apud: FILHO, Niemeyer Almeida. Op. Cit., p. 33.
[12] As ex-colônias espanholas, ao se verem independentes, lidariam com o privilégio de definir seus próprios destinos; contudo, sua organização e desenvolvimento acoplariam muitas das afinidades estabelecidas com o resto do mundo, principalmente no que concerne a ideologias e às relações comerciais. Dessa forma, observa-se uma relação de dependência que aos poucos se coloca entre estas nações e a potência do cone norte: os Estados Unidos.
[13]“Em 1901, Theodore Roosevelt, antigo chefe da polícia de Nova York, foi eleito presidente dos EUA.Seu ditado era “Speak softly and carry a big stick, you will go far” (fale manso e sempre carregue um grande porrete, você vai longe). A partir daí, a política externa dos EUA, marcada pelo Destino Manifesto e pela doutrina Monroe, ficaria conhecida como “Big Stick Diplomacy” (Diplomacia do Grande Porrete).” CARDOSO, Oldimar Pontes. História Hoje. São Paulo: Ática, 2006, 1ª Edição, p. 89.
[14] Destaca-se aqui o comércio de compensação, que versava em um modelo comercial desenvolvido entre a Alemanha e a América Latina durante a década de 1930, que consistia na troca de produtos por produtos sem a necessidade de uma intervenção monetária real.
[15] MOURA, Gerson. Tio Sam chega ao Brasil: a penetração cultural americana. São Paulo: Brasiliense, 1986, p. 16.
[16] Sobre esse fato ver DREIFUSS, René Armand. 1964- A Conquista do Estado: ação política, poder e golpe de classe. Petrópolis, Vozes, 1981; DREIFUSS, René Armand. O Jogo da Direita. Petrópolis, Vozes, 1989; STARLING, Heloisa Maria Murgel. Os Senhores das Gerais: os novos inconfidentes e o golpe de 1964. Petrópolis, Vozes, 1986.
[17]Macartismo (em inglês McCarthyism) é o termo que descreve um período de intensa patrulha anticomunista, perseguição política e desrespeito aos direitos civis nos Estados Unidos, que durou do fim da década de 1940 até meados da década de 1950. Foi uma época em que o medo do Comunismo e da sua influência em instituições americanas tornou-se exacerbado, juntamente com o medo de ações de espionagem promovidas pelo bloco socialista. Originalmente, o termo foi cunhado para criticar as ações do senador americano Joseph McCarthy, tendo depois sido usado para fazer referência a vários tipos de condutas não necessariamente ligadas às elaboradas por McCarthy. Durante o Macartismo, muitos milhares de americanos foram acusados de ser comunistas ou filocomunistas, tornando-se objeto de investigações agressivas. A maior parte dos investigados pertencia ao serviço público (como Alger Hiss), à indústria do espetáculo (como Barbara Bel Geddes), cientistas (David Bohm), educadores e sindicalistas. As suspeitas eram frequentemente dadas como certas, mesmo com investigações baseadas em conclusões parciais e questionáveis, além da magnificação do nível de ameaça que representavam os investigados. Muitos perderam seus empregos, tiveram a carreira destruída e alguns foram até mesmo presos e levados ao suicídio.O Macartismo realizou o que alguns denominaram de“caça às bruxas” na área cultural, atingindo atoresdiretores e roteiristasque, durante a guerra, manifestam-se a favor da aliança com a União Soviética e, depois, a favor de medidas para garantir apaz e evitar nova guerra. O caso mais famoso nesta área foi o de Charles Chaplin. A “caça às bruxas” perdurou até que a própria opinião pública americana ficasse indignada com as flagrantes violações dos direitos individuais graças, em grande parte, à atuação corajosa do famoso e respeitadíssimo jornalista Edward R. Murrow na rede americana de televisão CBS, o que levou McCarthy ao ostracismo e à precoce decadência. Ele morreu em 1957, já totalmente desacreditado e considerado uma figura infame e uma vergonha para os americanos. Muitos filmes foram produzidos sobre este período, todos retratando McCarthye seus seguidores como figuras desprezíveis e a histeria que criaram como uma crise que foi superada. Dentre estes, destaca-se “Boa Noite e Boa Sorte dirigido por George Clooney e estrelado por David Strathairn, no papel do jornalista Edward R. Murrow. O filme narra os embates entre o jornalista e o Senador McCarthy, durante os anos 1950, que contribuíram na decadência do senador. Fonte: <http://pt.wikipedia.org/wiki/macartismo>. Acesso em: 16 de novembro de 2011.
[18]A assim chamada Unidade Popular foi uma coalizão de esquerda que compreendia os partidos Comunista (PC), Socialista (PS), os Radicais, o Partido Social-Democrata, a Ação Popular Independente e o Movimento da Ação Popular Unificado (MAPU) e era a base de governo de Salvador Allende no Chile.
[19] FILHO, Niemeyer Almeida. Op. Cit.,p. 35.
[20] Dentre esses fatos destacam-se a consolidação da indústria, a crise da agricultura exportadora, a entrada em massa de empresas multinacionais no setor industrial e a revolução cubana em 1959. O golpe militar brasileiro de 1964 transforma-se num “ensaio” e depois em um paradigma para outros países da América Latina, particularmente para o Peru, a Argentina, o Chile e o Uruguai.
[21] Os três processos são encontrados no artigo: BRESSER-PEREIRA, Luiz Carlos. “Em busca de um Pacto Político Liberal-Popular. Ele será possível?”. Jornal da Tarde, Cadernos de Programas e Leituras. 09 de novembro de 1985, p.1.
[22] BARBIAN, Luciano. “A Ditadura de Segurança Nacional na América Latina e as especificidades do caso boliviano”. In: Revista Eletrônica Vestígios do passado, a história e suas fontes. Disponível em <www.scribd.com/a_ditadura_de_segurana_nacional_na_america_latina_e_as_especificidades_do_caso_boliviano>. Acesso em: 25 de novembro de 2011.
[23] Para as questões de soberania nacional e internacional ver: MORE, Rodrigo Fernandes. “O Moderno Conceito de Soberania no Âmbito do Direito Internacional”. Disponível em <http://www.more.com.br/artigos/Soberania.pdf>. Acesso em 25 de novembro de 2011; MORE, Rodrigo Fernandes. “A Efetividade das Decisões Judiciais Nacionais em Território Estrangeiro”. Disponível em: <http://www.more.com.br/artigos/Efetividade%20das%20decis%F5es%20judiciais%20nacionais%20em%20territorio%20estrangeiro.pdf>. Acesso em: 25 de novembro de 2011. MORE, Rodrigo Fernandes. “Conflitos Modernos, Direito e Relações Internacionais”. Disponível em: <http://jus.com.br/revista/texto/10048/conflitos-modernos-direito-e-relacoes-internacionais>. Acesso em: 25 de novembro de 2011. Para a legitimidade nas ditaduras latino-americanas ver: ROUQUIÉ, Alain. “Dictadores, Militares y Legitimidad en América Latina”. Revista Critica y Utopia, Escenarios Alternativos, Nª 5, 2003,p. 31.
[24]COMBLIN, Joseph. A Ideologia da Segurança Nacional – O Poder Militar na América Latina. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira, 1978, 2ª Edição,p. 28. Apud: BARBIAN, Luciano. Op. Cit.,p. 2.
[25] BARBIAN, Luciano. Op. Cit., p. 2.
[26]Segundo a Doutrina Truman, a União Soviética pratica um novo tipo de guerra, a “Guerra Fria”. E nesse tipo de guerra a batalha não ocorre apenas no front militar, mas também nos campos cultural, econômico e social, na disputa por corações e mentes. E toda vez que houvesse algum questionamento ao status quo em qualquer parte do mundo, ou algum governo desfavorável aos interesses do imperialismo estadunidense, se buscava nisso o “dedo de Moscou”. E assim se procurava legitimar a interferência imperialista sob o pretexto de “defender o mundo livre”. BARBIAN, Luciano. Op. Cit.,p. 2.
[27] Ver anexo III. Fotografia de Salvador Allende ao lado do presidente cubano Fidel Castro, uma das principais figuras da vitória da Revolução Cubana.
[28]KGB é a sigla, em russo, de Komitet Gosudartvennoi Bezopasnosti (Comitê de Segurança do Estado), a polícia política e agência de espionagem e contraespionagem da extinta URSS.
[29]Na campanha de 1964, Eduardo Frei Montalva “ganhou graças a uma maciça intervenção publicitária da CIA, que o apoiou, provendo mais da metade das verbas de sua campanha política e promovendo uma gigantesca campanha publicitária em seu favor. Na terceira semana de junho de 1964, a agência publicitária encarregada da propaganda política pela CIA produziu nada menos que 20 spots radiofônicos por dia em Santiago e em 44 estações provinciais; cinco “noticiários” radiofônicos de doze minutos ao dia em três rádios de Santiago e em 22 rádios provinciais. No final de junho de 1964 a CIA produzia 26 programas radiofônicos semanais de "comentários políticos". Fonte: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Eduardo_Frei_Montalva>. Acesso em: 16 de novembro de 2011.
[30] Ver anexo I. Telegrama do presidente Richard Nixon à Cia solicitando investimentos profundos para a derrubada de Allende no Chile.
[31]Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Elei%C3%A7%C3%B5es_presidenciais_no_Chile_em_1970>. Acesso em: 16 de novembro de 2011.
[32] Jornal Estadão Online. EUA tentaram impedir a posse de Allende, diz documento. Data: 10 de setembro de 2008, 15h06min. Disponível em: <http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,eua-tentaram-impedir-posse-de-allende-diz-documento,239424,0.htm>. Acesso em: 25 de novembro de 2011.
[33] PETRAS, James. Imperialismo e classes sociais no terceiro mundo: uma perspectiva crítica. Rio de Janeiro: Zahar editores, 1980, p. 132.
[34] Ver SAES, Flávio Azevedo Marques de. “Desenvolvimento e Subdesenvolvimento na obra de Celso Furtado”. In: CORSI, Francisco Luiz e CAMARGO, José Marangoni (orgs.). Celso Furtado: Os desafios do desenvolvimento. São Paulo: Cultura Acadêmica; Oficina Universitária, 2010, pp. 81-102.
[35] Programa de governo da Unidade Popular chilena (UP). In: SOTO, Oscar. El ultimo día de Salvador Allende. Disponívelem: <http://www.4shared.com/file/63114480/10f3def9/Oscar_Soto_-_El_ltimo_da_de_Salvador_Allende.html>. Acesso em: 16 de novembro de 2011.
[36] AGGIO, Alberto. “O Chile de Allende: entre a derrota e o fracasso”. In: FICO, Carlos (org.) Ditadura e Democracia na América Latina. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2008, p. 82.
[37] Ver GUERRA, Alessandro. Cuba: 1950-2011. Macaé: 2011. Trabalho apresentado para a conclusão da grade de História da América Contemporânea no Contexto Capitalista ao professor Ms. Victor Tempone. Graduação em Licenciatura Plena em História pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Macaé – FAFIMA.
[38] PETRAS, James. Op. Cit., p. 175.
[39] Após a paralisação das fábricas pelas associações burguesas, os grupos operários demonstraram seu apoio ao governo da UP tomando as fábricas e fazendo-as funcionar sem a presença dos patrões. Sobre esse assunto, ver WINN, Peter. A Revolução Chilena. São Paulo, UNESP, 2010, p. 75 e seguintes.
[40] PETRAS, James. Op. Cit., p. 139.
[41] AGGIO, Alberto. Op. Cit.,p. 79.
[42] Ver: ANTUNES, Priscila. “O sistema de inteligência chileno no governo Pinochet”. In: Varia História. Belo Horizonte, vol. 23, nº 38. Jul/Dez 2007, pp. 399-417.
[43] Ver: ANTUNES, Priscila. “Ditaduras Militares e institucionalização dos serviços de informação na Argentina, no Brasil e no Chile”. In: FICO, Carlos (org.). Ditadura e Democracia na América Latina: balanço histórico e perspectivas. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2008, p. 227.
[44]Ainda antes da eclosão do golpe militar de 11 de setembro de 1973, os EUA concederam, via Fundação Ford, bolsas de estudos para que graduados de universidades chilenas, a maior parte deles oriundos da Universidade Católica do Chile, para que fizessem cursos de pós-graduação em instituições de ensino superior norte-americanas.  Na área da economia, os doutorandos chilenos foram estudar na Universidade de Chicago com os dois próceres das teorias neoliberais: Milton Friedman e Friedrich von Hayek. Friedman e Hayek eram os defensores da desregulamentação econômica, da abertura das economias aos capitais externos e intransigentes defensores do Estado Mínimo. Foi essa mentalidade que norteou as políticas econômicas chilenas pós 1973. Os discípulos de Friedman (que por diversas vezes foi ao Chile supervisionar de perto o trabalho de seus discípulos) passaram a ditar os rumos da economia chilena, muitos deles tendo ocupado os ministérios da área econômica desse país. Ficaram conhecidos como Chicago Boys (Garotos de Chicago) e o Chile conheceu o chamado período do “milagre chileno”. Privilegiava-se o mercado e suas injunções, sem a menor consideração pelo impacto social causado. Os resultados, a longo prazo, foram desastrosos para a maior parte da população, mas enriqueceram ainda mais as elites. Não é demais lembrar que as ideias de Friedman também foram adotadas na Inglaterra pelo governo de Margareth Thatcher e nos Estados Unidos no período da presidência de Ronald Reagan, tendo, igualmente, redundado em graves crises sociais. Dos Chicago Boys cabe ressaltar os nomes de Jorge Cauas (Ministro das Finanças entre 1975 e 1977), Sergio de Castro (Ministro da Finanças entre 1977 e 1982), Pablo Baraona (Ministro da Economia entre 1976 e 1979) e Hernán Bucchi (Ministro da Economia entre 1982 e 1985). A esse respeito, ver WINN, Peter. Op. Cit., DINGES, John. Op. Cit. e KLEIN, Naomi. The ShockDoctrine. New York, Columbia University Press, 2008.
[45] Ver Anexo II - Tabela de presidentes chilenos a partir da posse do general Augusto Pinochet.
[46] Vale ressaltar que com a proliferação desses organismos e instituições no início da Guerra Fria, os EUA foram um dos países que montaram um extraordinário e complexo aparato de análise de informações que envolvia os melhores experts do país.
[47] GUZMÁN, Nancy. “La CIA instruyó a la Dina”. La Semana. Bogotá, 2005. Disponível em: <http://www.estocolmo.se/chile/contreras_diciembre07.htm>. Acesso pela autora em: 20 de abril de 2005. Apud: ANTUNES, Priscila. Op. Cit. P. 403.
[48] GOBIERNO DE CHILE. Informe Retting. Santiago de Chile, 4 de março de 1991. Disponível em: <http://www.gobiernodechile.cl/comision_valech/capitulo6.asp>. Acesso pela autora em: 24 de abril de 2005.
[49] ANTUNES Priscila. Op. Cit.,p. 404.
[50] Até 2005, Manuel Contreras já havia sido processado e condenado pelo desaparecimento de 200 pessoas e responsabilizado pela tortura de cerca de 7.000 chilenos. Depoimento dado por Manuel Contreras à revista La Semana, s/d.
[51] Declarações do general Gustavo Leigh Guzmán, ex-membro da Junta de Gobierno. Apud: AZOCAR, Pablo. Pinochet, epitafio para un tirano. Santiago: Ed. Cuarto Proprio, 1999,p.26.
[52] POLICZER, Pablo. “A Polícia e a Política de Informações no Chile durante o Governo Pinochet”. In: Estudos Históricos. Rio de Janeiro, vol. 12, nª 22, 1998,p. 10.
[53] O general Carlos Prats havia sido o Comandante do Exército chileno durante o governo de Salvador Allende e havia esboçado uma reação à possibilidade de um golpe militar.  
[54] Orlando Letelier, chanceler chileno, havia sido Ministro dos Negócios Exteriores durante o governo de Salvador Allende. Juntamente com sua secretária, foi vítima de um atentado à bomba, colocada em seu carro, a mando dos generais Manuel Contreras e Augusto Pinochet.
[55] ANTUNES, Priscila. Op. Cit., p. 406.
[56] SANTOS, Theotônio dos. “Economia Global, Integração Regional e Desenvolvimento Sustentável”. In: Revista Tempo Brasileiro. Rio de Janeiro, 139: 5/24, out. – dez. 1999.

Ramon Mulin
Professor de História na rede privada de Conceição de Macabu
Graduado em História pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Macaé
Conceição de Macabu - RJ