
“Balzac dizia que as ruas de Paris nos dão impressões humanas. São assim as ruas de todas as cidades, com vida e destinos iguais aos dos homens.” [1]
Na
Europa do final do século XIX, e início do século XX, um movimento renovador da
cultura estava atingindo seu ponto máximo. Era o início de um novo tempo,
marcado por mudanças profundas na construção de uma nova sociedade.
Esse movimento de novos estilos - variados e
fortes - vinha se confrontando na cidade de Paris, expondo ao mundo as novas
tendências na arquitetura, nas artes, na literatura, na música, em meio a uma
efervescência de outras atividades culturais.
Surgia a era de ouro da beleza e da inovação.
Essas novas tendências representadas pelo
Impressionismo, o Simbolismo, o Pontilhismo e a Art Nouveau invadiram toda a
Europa e transpuseram o Atlântico chegando aos Estados Unidos e ao Brasil.
O
movimento ficou conhecido como Belle Époque, período em que as intensas
transformações geraram modificações nos hábitos, convicções e percepções de boa
parte do mundo. O sentido da Belle Époque, contudo, ultrapassava os valores
materiais e se configurava num estado de
espírito, um novo comportamento, uma modificação na mentalidade social da
época.
No Brasil tais transformações vão confluir
diretamente com o surgimento de uma nova classe social em ascensão, e é essa
classe que absorve o modelo cultural europeu, influenciando o desenvolvimento
social, político e econômico. Impondo assim uma divisão que evidenciava não
mais nobres e plebeus, mas, sobretudo ricos e pobres.
A
nova burguesia republicana, proveniente das oligarquias cafeeiras, assimila o
novo tempo e se adapta facilmente à velocidade
com que as inovações tecnológicas invadiram o seu cotidiano. O cinema, o
teatro, o automóvel, o telefone, o telégrafo sem fio, a bicicleta são apenas
algumas dessas inovações, reconhecidas como a segunda Revolução Industrial.
A
cultura abria espaço para autores como Baudelaire,
Balzac, Verlaine e Anatole France entre outros;
a boemia estava em voga, as operetas eram o sucesso do momento e a alta costura
estimulava a vaidade das senhoras da sociedade cosmopolita.
Tais mudanças abrangem também os setores
políticos e, sobretudo, econômicos, onde a diversificação de investimentos traz
transformações em todos os setores da sociedade.
Os
latifundiários aliando – se a grandes comerciantes passam a investir o lucro de
seus negócios na indústria, processo que acelerou o número de fábricas
instaladas nas grandes cidades, incentivando assim o êxodo rural e a imigração.
Esse
processo, segundo Nicolau Sevcenko ao abordar o caso brasileiro, mostra que a
sociedade passou a dividir-se em dois blocos antagônicos: o urbano e o rural[2].
Nesse
contexto está a cidade do Rio de Janeiro, capital da República, considerada o
pólo irradiador de cultura, o lugar onde todas as novidades provenientes da
Europa chegavam primeiro. Sede das instituições econômicas nacionais e
estrangeiras mais importantes, o que a tornava o centro das atividades
financeiras e com o núcleo da maior rede ferroviária do país, o que
possibilitava que tais tendências alcançassem outras capitais e cidades do
interior.
A
situação era realmente excepcional. A cidade do Rio de Janeiro abre o século XX
defrontando-se com perspectivas extremamente promissoras. Aproveitando de seu
papel privilegiado na intermediação dos recursos da economia cafeeira e de sua
condição de centro político do país (...) Núcleo da maior rede ferroviária
nacional (...) Sede do Banco do Brasil, Bolsa de Valores e das maiores casas
bancárias nacionais e estrangeiras. [3]
Tais
fatores, aliados à libertação dos escravos, ao grande contingente de imigrantes
estrangeiros e à miríade de brasileiros provenientes de todas as regiões do
país, todos atraídos pela possibilidade de trabalho assalariado, contribuíram
diretamente para o aumento populacional, causando graves problemas urbanísticos
e sanitários. O crescimento desordenado, o aumento da pobreza, a crise
habitacional que acabou por gerar habitações
coletivas, a disseminação de doenças e o mau uso do espaço urbano se tornaram inadmissíveis
diante de uma nova realidade onde os padrões baseados no luxo, na beleza e na
cultura passavam a ser cultivados.
O Brasil entrou – e já era tempo – em fase de
restauração do trabalho. A higiene, a beleza, a arte, o “conforto” já
encontraram quem lhes abrisse as porta dessa terra, de onde andavam banidos por
um decreto da Indiferença e da Ignomínia coligadas. O Rio de Janeiro,
principalmente, vai passar e já está passando por uma transformação radical. A
velha cidade, feia e suja, tem os seus dias contados.[4]
A
área social também sofre mudanças, um novo modelo familiar burguês se impõe
através de uma cultura na qual a estrutura educacional francesa se torna marcante.
A música, os livros, a moda e as artes são apenas alguns itens incorporados por
ela. Tudo que era fino e de bom tom, era o que da França podia-se assimilar. A
melhor educação era proporcionada pelos pais que podiam enviar seus filhos para
as melhores instituições de ensino da Europa.
O advento da República proclama sonoramente a
vitória do cosmopolismo no Rio de Janeiro. O importante, na área central da
cidade, era estar em dia com os menores detalhes do cotidiano do Velho Mundo. E
os navios europeus, principalmente franceses, não traziam apenas os figurinos,
o mobiliário e as roupas, mas também as notícias sobre as peças e livros mais
em voga, as escolas filosóficas predominantes, o comportamento, o lazer,as
estéticas e até as doenças, tudo enfim que fosse consumível por uma sociedade
altamente urbanizada e sedenta de modelos de prestígio.[5]
A
velha Capital do país, contudo, estava longe de corresponder às expectativas
dessa nova classe. Suja, feia, mal ventilada e infestada de pestes, carregava o
triste título de “túmulo de estrangeiros”.
Estruturada ainda como uma cidade colonial, carecia de saneamento básico,
transporte, abastecimento de água, saúde e segurança, o que a tornava totalmente
incompatível com o novo modelo sócio – econômico. Era chegada a hora da cidade
colonial ceder lugar definitivamente para a nova “cidade burguesa”, moderna e
com parâmetros europeus. Diante desse quadro, reformas urgentes eram necessárias.
Ao
assumir a presidência em 1902, Francisco de Paula Rodrigues Alves promoveu sob
a batuta do engenheiro Francisco Pereira Passos, nomeado prefeito da Capital,
uma reforma urbana inspirada no modelo francês, aos moldes da que fora empreendida
pelo Barão Haussmann em Paris.
A
escolha de Pereira Passos aos 66 anos de idade não foi aleatória: ainda jovem, depois
de sua formatura viajou a Paris para aprimorar seus estudos em engenharia. Nesse
período freqüentava como ouvinte os cursos de arquitetura, estrada de ferro, portos
de mar e canais, melhoramentos de rios navegáveis, economia política e direito
administrativo, enquanto acompanhava de perto as remodelações da cidade. Além
disso, ele havia integrado a Comissão de Melhoramentos da Cidade do Rio de
Janeiro, ainda no Império, o que o tornava perfeito para por em prática os
planos do então presidente.
Rodrigues
Alves via a cidade como uma vergonha nacional, as condições sanitárias do Rio
impediam a chegada de investimentos, maquinaria e mão-de-obra estrangeira. O
projeto urbanístico - sanitário deveria ser executado a qualquer preço.
A
palavra de ordem era “embelezar”.
O termo
“embelezar” tem enorme ressonância no discurso propagandístico da época.
Designa mais do que a imposição de novos valores estéticos, a criação de uma
nova fisionomia arquitetônica para a cidade. Encobre por assim dizer,
“múltiplas estratégias”. A erradicação da população trabalhadora que residia na
área central(...)A construção da avenida, representou antes de tudo, um processo
de expropriação ou segregação de determinadas frações sociais de uma área
privilegiada (...)do espaço urbano em proveito de outras frações sociais,
atuando o Estado como executor do processo(...).[6]
Para por em prática e custear todos esses
planos, seria necessário levantar uma vultosa quantia. A primeira opção foi a
de tentar conseguir, sem intermediários, o empréstimo no exterior através de
banqueiros europeus: as negociações, contudo, fracassaram. Pereira Passos então
tratou de levantá-lo por intermédio do Banco da República no Rio. Um total de quatro
milhões de libras, segundo Benchimol.[7]
Aliando – se a isso, um arrocho fiscal, a redução de despesas e o aumento de
arrecadação completariam o quadro financeiro.
A
renovação do porto seria o ponto de partida, seguindo - se a abertura,
remodelação e alargamentos das ruas, novas formas de iluminação, demolição de
cortiços, medidas sanitárias e regulamentadoras do comércio informal, dentre
outras aprovadas e postas em prática pelo governo.
Tais medidas impulsionaram uma imensa
valorização do solo urbano central, atingindo a grande massa populacional que
ali se concentrava, provocando a expansão da malha urbana tanto para a zona sul
como em direção à zona norte e aos subúrbios.
“Em nove meses de reforma urbana derruba cerca
de 600 edifícios e casas para abrir a Avenida Central (hoje, Rio Branco). A Ação
conhecida como “bota – abaixo” obriga parte da população mais pobre a se mudar
para os morros e periferia”.[8]
Despejados de suas casas e de seus comércios,
milhares de pessoas viram-se drasticamente apartadas do
seu cotidiano e foram obrigadas a se instalar em outras áreas.
Algumas dessas pessoas se deslocaram para os
subúrbios Essas áreas, contudo, não constituíam uma opção para os que sobreviviam
com poucos recursos, muitas vezes vivendo de biscates ou de pequenas diárias.
Era opção apenas para os que gozavam de uma remuneração estável, suficiente
para as despesas de transporte, aluguel de um imóvel ou aquisição de um terreno
e a conseqüentemente a construção de uma casa . Aqueles que não podiam manter-se
longe do local de trabalho optaram por construir casebres (mocambos) no alto
dos morros, ganhando assim tempo e diminuindo as despesas com as passagens
As
ocupações desordenadas dos morros geraram comunidades sem nenhum projeto
sanitário e urbanístico, um novo modelo de sociedade, segregada, sem direitos,
mas com deveres a serem cumpridos e à margem da nova sociedade, que desfilava em suas largas avenidas
pavimentadas, arborizadas, iluminadas e com calçadas de pedras portuguesas
formando desenhos artísticos.
Ao
mesmo tempo em que remodelava a cidade, Pereira Passos usava todo o poder
discricionário do qual fora investido para criar leis que impedissem “velhos
hábitos”, no intuito de coibir a presença popular. As estratégias subjacentes a
essas medidas eram variadas, entrelaçavam-se: razões políticas e ideológicas ligadas
às formas burguesas de desfrute do espaço urbano, razões sanitárias, econômicas
e fiscais. O preço pago por essas violações sociais foi muito mais alto do que
imaginavam seus instituidores e muito mais pungente do que suas vítimas imaginavam
sofrer.
Para
ser vista como “habitat de pessoas civilizadas”, não bastava alterar a paisagem.
Era preciso inserir “um novo povo à cidade renascida”.
Nesse
intuito inúmeras medidas foram tomadas no sentido de proibir e regulamentar
práticas antigas tais como: ambulantes que vendiam bilhetes de loterias ou
alimentos pelas ruas; a captura e extermínio de cães soltos e o cadastramento
de todos cujos donos residissem no Distrito Federal - o que implicava num
imposto anual de dez mil réis -; o ordenhamento de vacas em frente às casas,
mendicância, reuniões em torno de quiosques, o uso das vias públicas como sanitário,
dentre outras.
Com tais medidas bania-se do centro da cidade uma fração considerável dos
populares, dando passagem para uma burguesia emergente que queria caminhar sem
constrangimentos pelas ruas de um Rio de Janeiro que se via como por espelho a
Paris que desejava ser.
Ao
mesmo tempo em que promovia as reformas urbanas, ficava claro ao governo que
somente elas não resolveriam todos os problemas. Havia outro fator importante a
ser priorizado da mesma forma. A cidade era foco de diversas epidemias: febre
amarela, peste bubônica, varíola, febre tifóide, impaludismo, tuberculose, entre outras. Destas,
a febre amarela e a varíola são as que ceifavam o maior número de vítimas.
Para
esse trabalho profilático foi nomeado o jovem médico Oswaldo Cruz ao cargo de Diretor
Geral da Saúde Pública, com o objetivo de erradicar os agentes transmissores.
Embora convicto de que conseguiria extinguir
as pestes que assolavam a cidade, o sanitarista encontrou pela frente não
somente os problemas sanitários, mas importantes questões políticas.
A febre amarela era o maior problema sanitário da
capital e a principal responsável por sua fama de cidade empesteada. O Dr.
Oswaldo Cruz inicia um plano enérgico de combate através da criação do Serviço
de Profilaxia Específica da Febre Amarela. A campanha
consistia em dividir a cidade em distritos sanitários, sob a jurisdição das
delegacias de saúde.
Os
médicos tinham a orientação de invadir os lares, interditar, despejar, internar
a força, notificar, multar e intimar proprietários de imóveis insalubres a
reformá-los ou demoli-los.
Funcionários treinados, conhecidos como os “mata
mosquitos”, iam pelas casas lavando as caixas d’água, limpando ralos, bueiros,
telhados e calhas, removendo qualquer depósito de larvas. Os doentes eram encaminhados
para o isolamento familiar ou para o desinfetório Central do Hospital São
Sebastião.
Além de todas as medidas de coação, utilizou
todas as formas de persuasão na tentativa de vencer a resistência à campanha. Artigos
nos jornais, folhetos educativos à população e aos médicos que em sua maioria
se posicionavam contra aos métodos utilizados na profilaxia e se negavam a
notificar de seus pacientes à saúde pública. Além disso, havia o apoio da
missão francesa integrada por pesquisadores do Instituto Pasteur, que estavam
no Rio para acompanhar os resultados da campanha e poder aplicá-las nas suas
colônias. Dez anos aproximadamente foram necessários para que não se registrasse
mais nenhum caso da doença.
Das
campanhas implementadas no combate às doenças que assolavam o Rio, a peste bubônica foi a que menos enfrentou problemas. Esta foi delineada
sobre o ataque direto aos agentes transmissores, os ratos e as pulgas (a doença
era transmitida pela picada das pulgas infectadas pelo sangue dos ratos).
Sob a orientação do Dr. Oswaldo
Cruz formou-se um esquadrão de homens vacinados que percorriam as ruas
espalhando raticidas, mandando recolher o lixo, vacinando os habitantes das
áreas mais infestadas como a zona portuária, notificando proprietários de
imóveis para a limpeza de seus quintais e a supressão de porões.
Outro fato
interessante a destacar é a criação do cargo de “comprador de ratos”, funcionários
que recolhiam os ratos mortos ou vivos pagando a quantia de 300 réis por animal,
o que suscitou uma verdadeira caça aos roedores pela população. Chegando alguns
ao extremo de fazer criação para depois vendê-los aos
agentes.
Nos quatro primeiros anos do século XX a
doença responderia por aproximadamente 1300 óbitos, sendo que após a
campanha nos cinco anos subseqüentes esse número não chegaria a 400.
O combate à varíola,
no entanto, seria o ápice da tensão entre o governo e a população. A
obrigatoriedade da vacina desencadeou um descontentamento por parte da massa que
já estava farta de se sentir desrespeitada e invadida pelo governo. Antes,
criou - se uma revolta que, insuflada pela imprensa que batizara as novas
posturas municipais como “Códigos de Torturas”, serviu de arma os políticos opositores do governo
que há tempos vinham articulando um golpe.
O
plano de assalto ao poder estava sendo encabeçado por florianistas e Jacobinos[9], ironicamente patrocinados
por monarquistas que haviam sido extirpados da nova política republicana.
Todos
viam no movimento a chance de manipular a insatisfação popular em prol de suas
causas e assim alcançar o seu único objetivo: reaver o poder.
A
revolta eclode. A multidão insurgida se aglutina
pelas ruas em meio a discursos inflamados e palavras de ordem, tentando levar a
revolta às últimas conseqüências.
As pobres mães choravam
E gritavam por Jesus
O culpado disso tudo
É o Dr. Osvaldo Cruz[10]
O povo rejeitava os métodos usados alegando
que eram pouco confiáveis e que todos os envolvidos na campanha, como policiais, enfermeiros e fiscais eram brutos e
de moralidade duvidosa. Numa sociedade extremamente recatada o fato de ter o
corpo exposto e manipulado por estranhos no momento da vacinação trazia
constrangimento a todos.
Dentro
dessa multidão de revoltosos estavam os militares insatisfeitos com Rodrigues
Alves. Generais que se aproveitaram do momento
de turbulência do governo para sublevar jovens oficiais formados nas escolas técnicas
de preparação de cadetes, onde o positivismo, as novas teorias cientificas e
uma reorganização da sociedade era a proposta
corrente.
O plano era marchar em direção ao Catete com
auxilio da massa revoltosa, depondo o presidente e instaurando o novo regime. Os planos, contudo, foram frustrados diante
da proporção que a revolta tomou. Não
havia como controlar a massa enfurecida.
Enquanto o governo tentava achar uma solução
para combater os levantes, a varíola continuava fazendo vítimas e diante da
emergência de uma solução e da desordem pública instauradas, o prefeito não
podia mais esperar. Reage à revolta com as tropas governamentais nas ruas. O
combate foi cruel e intenso, as baixas inevitáveis dos dois lados. Um rastro de
mortos, detidos, exilados e um vasto patrimônio público depredado.
O
governo, submerso no caos da desordem, lançou mão de todos os recursos
imediatamente disponíveis para a repressão. Como a força policial não dava
conta da situação, passou a solicitar todos os reforços possíveis das tropas do
Exército e da Marinha. Não foi suficiente. Precisou chamar unidades do Exército
acantonadas nas regiões limítrofes: fluminenses, mineiras e paulistas. Ainda
assim não bastou.Teve de armar toda corporação de bombeiros e investi-la na
refrega.Mas a resistência era tanta que precisou apelar para recursos ainda
mais extremados: determinou o bombardeio de bairros e regiões costeiras por
suas embarcações de guerra. Finalmente convocou a Guarda Nacional. Só pelo
concerto inusitado dessa espantosa massa de forças repressivas, pôde o governo,
aos poucos e com extrema dificuldade, sufocar a insurreição.[11]
Diante dos fatos,
uma decisão sensata é tomada: o governo recua e revoga a
obrigatoriedade da vacina, permanecendo apenas a exigência do atestado de
vacinação para trabalho, viagem, casamento,
alistamento militar, matrícula em escolas públicas, e hospedagem em hotéis.
A
cidade que se sonhava urbanizada e saneada estava agora irreconhecível.
(...)
calçamentos revolvidos, casas ruídas, janelas estilhaçadas,portas arrobadas,
trilhos arrancados, restos de bondes, carros e carroças calcinados nas ruas,
crateras de dinamite e petardos, ruínas de prédios incendiados, lâmpadas
quebradas, postes , bancas, relógios e estátuas arrancadas, trincheiras
improvisadas dos mais variados materiais, barreiras de arame
farpado,perfurações de bala por toda parte, manchas de sangue, cavalos mortos,
cinzas fumegantes. Um número incalculados de mortos e feridos, perdas e danos
materiais inestimáveis, uma atmosfera de terror que se faria sentir até dois
anos mais tarde.[12]
Segundo Benchimol[13],
o processo de reformulação e saneamento alcançou seu êxito estruturado na ação
conjunta entre os governos federal e municipal nos momentos mais relevantes.
Controlada a
revolta, o Rio de Janeiro caminhava para se tornar uma cidade “livre, limpa e
remodelada” deixando para trás o título de “túmulo de estrangeiros” e se
transformando na “cidade maravilhosa”.
Segundo conceito emitido à época, a “cidade
chiqueiro” fora transformada em “cidade maravilhosa”, numa apoteose de jardins
floridos, de grandes monumentos, com avenidas de esplêndida largura e a massa
altiva e monumental de arranha - céus. Quadro contraditório!
De um lado a cidade “limpa”, as epidemias
controladas os boulevards à moda parisiense; de outro, a massa indesejada de
pés – descalços, o lado cruel dessa moeda cunhada pelos “homens de visão”.
Expulsa repentinamente de seus lares, impedida de manter seus hábitos e
tradições, foi excluída da faceta melhor dessas transformações: o viver e
transitar pela cidade saneada e remodelada.[14]
Era
o início de um novo tempo, marcado por mudanças e por um novo modelo de sociedade.
Ainda hoje, no entanto, assim como no início do século XX, as estruturas
arquitetônicas e urbanísticas continuam a ser implacavelmente destruídas em
nome do “moderno”, do progresso. O interesse do “capital” é o real governante
dos tempos, não importando quem vai pagar o preço, quem vai ser excluído, o que
vai ser apagado ou a História que deixará de ser representada.
Referências Bibliográficas:
RIO,
João do. A Alma encantadora das ruas. Rio de Janeiro: Ed.
Martin Claret, 2007.
SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão. Tensões sociais e criação
cultural na Primeira República. Brasília: Ed. Brasiliense, 1983.
____________________. A Revolta
da vacina: mentes insanas em corpos rebeldes. São Paulo: Ed. CosacNaify, 2010
BENCHIMOL, Jaime Larry. Pereira Passos: Um Haussmann tropical. A renovação do Rio de Janeiro no
século XX. Rio de Janeiro: Coleção
Biblioteca Carioca, 1992.
HORTA, Sandra. Artigo: Avenida
Central: Contraste do Tempo. http://www.iceu.com.br/materialDetalhes.asp?id=45
[2] SEVCENKO, Nicolau. Literatura como Missão: tensões sociais e
criação cultural na Primeira República.
São Paulo: Ed. Brasiliense, 1983. p.
32
[3] Idem, p.27
[4] BILAC, Olavo. Crônicas,
1904. Apud SEVCENKO, Nicolau.
Op. Cit. p.30
[5] SEVCENKO, Nicolau. Literatura como Missão: tensões sociais e
criação cultural na Primeira República.
São Paulo: Ed. Brasiliense, 1983.
p. 36
[6] BENCHIMOL, Jaime Larry. Pereira Passos: Um Haussmann tropical. A
renovação do Rio de Janeiro no século XX. Rio de Janeiro: Coleção
Biblioteca Carioca, 1992. p. 228
[9] Os Florianistas eram jovens formados nas escolas técnicas de preparação
de cadetes onde as novas teorias positivistas e científicas propunham uma nova
reorganização da sociedade através de uma ditadura militar e uma legislação
baseada na proteção e assistência ao trabalhador. Os Jacobinos eram pessoas das mais variadas
atividades representadas por trabalhadores do serviço público, funcionários do
Estado, profissionais autônomos, pequenos empresários, bacharéis desempregados,
locatários de imóveis arruinados e desesperados pela política de Rodrigues
Alves e Pereira Passos que viam no discurso nacionalista, estatizante,
trabalhista e xenófobo dos florianistas a sua tábua de salvação.
[11] SEVCENKO,
Nicolau. A Revolta da vacina: mentes insanas em corpos rebeldes. São
Paulo: Ed. CosacNaify, 2010. p.33
[12] Idem p.52
[13] BENCHIMOL,
Jaime Larry. Pereira Passos: Um Haussmann Tropical. A Renovação do Rio de
Janeiro no século XX. Rio de Janeiro: Coleção Biblioteca, 1992.
[14] HORTA, Sandra. Artigo: Avenida Central: Contraste do Tempo. http://www.iceu.com.br/materialDetalhes.asp?id=45
IVANA MATOS PINHEIRO TAVARES
Professora de História na rede particular de ensino de Macaé
Graduada em História pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Macaé
Macaé - RJ